quinta-feira, 5 de junho de 2014

Extrativismo global, miséria local

De todas as atividades florestais, a extração de látex e produção de borracha natural da Seringueira parece ser uma das mais folclóricas, e talvez, a mais relegada. Ainda é ensinada como atividade de um ciclo econômico ultrapassado e rudimentar. Uma atividade mitificada, efetuada nos recônditos da floresta amazônica.

O mito e o real: o folclore e a subsistência 

Em decorrência dos contextos geopolíticos globais vigentes, o extrativismo do látex da seringueira foi feneticamente impelido por duas vezes na história moderna. Alterou o arranjo financeiro local e mundial, 

A revolução industrial e a indústria automotiva, na efervescência do 2° conflito mundial, demandaram quantidades de um material, que até então, possuía uma única fonte viável: uma árvore conhecida milenarmente pelos nativos das selvas tropicais sul americanas. E promoveram significativas alterações sociais, culturais e econômicas nas nações produtoras.

Territórios até então distantes e impensáveis foram conectados financeiramente. O norte amazônico, o nordeste árido, o sudeste oligárquico e as metrópoles mundiais integrados, cada um na sua função, na histeria financeira da borracha. E o ordenamento econômico distanciou socialmente  territórios produtores de centros administrativos e financeiros.

O modelo exploratório impôs um ideal irrecusável para um contingente sem opção, com a mínima logística direcionada à extração da valiosa matéria prima, nos recônditos insalubres da amazônia.

Apelo irresistível (meramente ilustrativo).
As metrópoles locais enlouqueciam na febre do consumismo ostentatório dos Barões da Borracha, muito mais que com os outros oligarcas rurais, comerciais e industriais das respectivas épocas. Foi no meio dessa farra que o botânico da Rainha provocou a quebra do primeiro ciclo amazônico da borracha.

A biopirataria, que até hoje é legalmente permitida, com uma carga de sementes de Hevea brasiliensis, resultou no deslocamento continental da cadeia dessa importante matéria prima e respectivo fluxo de capital. No profundo e irreversível impacto à economia nacional, não ficou registrada claramente a dissipação da população extrativista, a desmobilização emigração de recursos e de capital, o desaparecimento de fortunas e a erosão do patrimônio. 

Essa exploração florestal talvez tenha representado, nas duas ocasiões históricas de demanda externa do látex, a possibilidade  de desenvolvimento econômico, regional e nacional, com integração financeira e social da amazônia.

Ficaram tantas histórias insanas e infelizes conectadas na imponência da selva e na loucura humana, entre bancos, palácios e seringais. Tal qual Herzog retrata em Fitzcarraldo. E ainda não conseguimos aprender.

domingo, 31 de março de 2013

Qual o Meio Ambiente que você prefere?

Sobre o meio ambiente, ecologia ou natureza, todos temos conceitos e pré conceitos, atitudes e posturas. Utilizamos, consumimos, militamos, descartamos e nos abstemos.

Segundo nossa experiência e entendimento, condicionados diariamente pelas informações e emoções que formam nossa vivência, preferimos algumas coisa a outras. Na relação com nosso habitat, meio ambiente natural ou modificado, não é diferente. Preferimos ou temos mais ou menos empatia por espaços ou paisagens, conforme nossa percepção, entendimento pessoal e experiências emotivas e sensitivas.

avanço da ideologia tecnológica de corporações globais moldou a passividade e o individualismo em nossas preferências geográficas. E atualmente a praia, a montanha, a cachoeira, paisagens de aceitação indiscutível, se fazem constantemente presente em imagens virtuais, assim como o deserto, as ilhas oceânicas, e geleiras. 

Assistimos com nitidez e resolução; melhor que conviver com o mundo desconfortável e inseguro. A realidade virtual é mais atraente e nos convence que é mais cômodo observar imagens a vivenciar com a coletividade, nos verdes da concreta e cinzenta paisagem urbana. E talvez nem precisemos tanto de espaços abertos para convívio coletivo, como praças e  parques  E nem de áreas de vida selvagem ou com formações naturais.


E na sua concepção, qual é seu "meio ambiente" preferido?



O mais natural?


Àquele intocado?

O mais protegido?

O mais isolado?

Àquele conservado?

Àquele com diversidade?

O mais exuberante?

 O mais primitivo?

Àquele limpo e confortável?

O mais comum?

Àquele sustentável?

O mais próximo?

O mais acessível?


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Proteção Intermitente = Insegurança Permanente


A denominação Preservação Permanente, desgastada por apaixonadas e calorosas discordâncias, passou a constituir um jargão de pretensa proteção de habitantes urbanos para áreas predominantemente rurais. Incorporou a antipatia ideológica como impeditivo à produção rural. Tem sido distanciado o conceito do conhecimento, e assim polarizam-se as infundamentadas e parciais posturas.

Área degradada ou consolidada?
De um lado a sociedade urbana clama pela conservação de árvores e animais, por força do convencimento apelativo de superficiais abordagens televisivas. O envolvimento apaixonado  nada tem a ver com uma necessidade prática ou premente. Se percebe a proteção e amortecimento da vegetação das margens de rios, somente quando das enchentes e enxurradas. Empresários de comunicação e administradores públicos alardeiam sua ausência somente em ocorrências desastrosas. Mas todos esquecem que a ocupação empreendida e permitida nas cidades provocou a impermeabilização de quase todo o solo das bacias urbanas.


Área de insegurança intermitente

Por outro lado, produtores agrários rebatem a utilidade e necessidade de vegetação ciliar para as funções e regulações ambientais, às expensas de mais alguns hectares acrescidos à área rentável. O resultado do escoamento superficial de boa parte da água caída da chuva, que leva a destruição e a fertilidade do solo, não é percebido dentro da propriedade. 

A maioria dos consumidores urbanos credita o ônus e a responsabilidade da revegetação exclusivamente aos atuais produtores rurais. Estes reclamam, com certa razão, da conta da recomposição florestal. A prática do desflorestamento é resultante em parte, pelo estímulo histórico e pela cultura da soberania feudal do proprietário rural, gerada pela ausência e omissão do  Estado. E este não  incentiva efetivamente a recuperação da cobertura arbórea, direcionando a isenção de impostos para comerciantes de automóveis. Na queda de braço, o Parlamento, refletindo sua composição, pende para o lado de maior expressão econômica, e radicaliza atirando no pé apertado pelo sapato. Se o problema do trem é no último vagão, retira-se o último vagão.


Preservação intermitente?
A visão estreita e limitada somente enxerga o crescimento incondicional e imediato como se não houvesse uma capacidade de suporte a ser respeitada. E a segurança de populações e da própria economia é jogada por água abaixo, por não se perceber que a dinâmica dos fenômenos naturais é cíclica e interligada. Cursos d'água intermitentes evidenciam que o ciclo hidrológico e climático obedece uma pulsação vital, da qual depende toda a biota. Pensar que, pelo fato de não estar correndo água num curso qualquer, não há necessidade de cuidá-lo e protegê-lo, é equivalente a achar que por não estar na fase de colheita a cultura não merece cuidados e a terra que a suporta, não tem serventia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Florestabilidade

Despertar vocações para carreiras em manejo florestal. Assim começa a descrição do Projeto encampado pela Fundação Roberto Marinho. Parceria com o Fundo Vale  e com apoio do Serviço Florestal Brasileiro e Governos Estaduais da Amazônia, o Projeto ‘Florestabilidade: Educação para o Manejo Florestal’ procura difundir o uso sustentável das florestas e oferecer recursos pedagógicos para professores e técnicos extensionistas da Amazônia. Segundo o texto, a necessidade de se propagar as vantagens econômicas, sociais e ambientais do manejo florestal consiste numa das justificativas do projeto. Em todas as palavras, tudo o que a sociedade deseja, especialmente a comunidade florestal.



Não era sem tempo que uma organização atrelada a uma das maiores empresas de comunicação do mundo assumisse uma iniciativa, sem trocadilhos, dessa natureza. A programação e a propaganda que veicula parecem não despertar mais interesse em temas relevantes. A curiosidade dos telespectadores, quando muito, é direcionada para temas fúteis e espetacularmente irrelevantes. A apatia, desinteresse, indiferença e desinformação em assuntos vitais é a regra. Seria isso proposital? 


A mineradora, também uma das maiores do mundo, agraciada recentemente com o título de empresa com a pior atuação ambiental, se propõe a refazer a conceituação popular, apoiando financeiramente esta distinta empreitada, apesar do montante irrisório e alcance restrito


Mina de Carajás. Foto Salviano Machado
Quanto ao serviço público, já temos nosso pós conceito: nós contribuintes custeamos, é ineficiente ou não funciona, é corrompido, e apesar de tudo isso, não quero nem saber. Talvez tenha sido a programação televisiva, que contribuiu durante décadas para tais convicções e omissões, numa concessão intencionalmente permissiva ou conivente. E agora a passividade parece inquebrável. Mas vem ai a próxima atração.

Programação no horário nobre, recursos massivos da mineradora, fortalecimento institucional e estruturação do órgão para cuidar integral e totalmente da produção florestal? Nem tanto.


Três horas de aula para 2 mil professores e algum material didático não poderão fazer muito. E a programação continuará propositalmente alienante, a cava de lavra continuará aumentando e gerando retorno aos investidores. O serviço continuará inoperante e ineficaz.


A supremacia da bovinocultura e a rentabilidade dos insumos e mercadorias agrícolas e minerais continuarão sobre o estorvo das coberturas arbóreas nativas. Mas antes um alento que um sufoco. 

Pecuária ou floresta?  Foto: Ernesto de Souza

O gestor público disse que era um sonho o Manejo Florestal ser incluído na programação da emissora. E é justamente no intuito de tornar isso realidade, aproveitando a carona nessa nobre tarefa, centrada na essência da produção florestal, que os profissionais, entidades, servidores e consumidores devem agir. No acompanhamento do projeto, no repasse das informações, na divulgação dos resultados e seus ganhos, e sobretudo, na replicação das ações.


Deve-se aproveitar a oportunidade para esclarecer, divulgar, valorizar, convencer e promover a adesão da maioria, inclusive daqueles que pensam contrariamente.




O mérito do propósito nos deixa uma esperança de que não só crianças, estudantes e ribeirinhos de áreas periféricas e dependentes da Amazônia sejam instruídos. Telespectadores, acionistas, financiadores, fabricantes, comerciantes, anunciantes e governantes, também poderiam obter, quem sabe, esclarecimento para mudar suas convicções. E também algumas gotas de ânimo para escolher a floresta como fonte de desenvolvimento, no oceano de eficientes estímulos desflorestadores.


Para saber mais sobre o Projeto Florestabilidade:

http://www.frm.org.br/main.jsp?lumPageId=FF8081811F27C555011F37254F73287F&lumS=projeto&lumItemId=8A3E4E38344573090134A49A2A706EE2


http://www.florestal.gov.br/noticias-do-sfb/projeto-florestabilidade-e-lancado-no-rj


terça-feira, 10 de julho de 2012

O profissional das Florestas

Profissionais com atuação ou relacionados ao meio ambiente existem inúmeros. São incontáveis os profissionais que tratam de recursos naturais, que trabalham com ecologia, que cuidam dos seres vivos, ou se dedicam à preservação de ecossistemas. Pertencem a diversas categorias, com as mais diferentes formações.


Mas para trabalhar com florestas, procurando o ordenamento destas formações, aliando a manutenção dos recursos florestais a uma produção com rendimentos sustentáveis, prevendo a manutenção perpétua de estoques e a maximização da rentabilidade, existem poucos profissionais habilitados. 

Em numero certamente insuficiente, estes profissionais tiveram uma formação que os habilita a trabalhar com diversas atividades relacionadas às florestas e aos recursos delas advindos, nos seus mais distintos aspectos e enfoques. Desde o manejo de fauna, visando a exploração econômica dos animais nativos com potencial econômico, a recuperação, reabilitação e recomposição de áreas florestais, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, passando por questões ambientais de caráter bioclimático, edáfico, hídrico, biológico e ecossistêmico, até a atribuição mais emblemática, o manejo para fins madeireiros, cuja habilitação é própria e específica. 



A produção florestal, geralmente apontada como nociva e indesejável, em função da abordagem ambiental imposta pelos meios de comunicação, necessita de profissionais com formação específica. É justamente essa formação e vivência que permite conciliar a exploração e a preservação, habilidade singular que poucos profissionais desenvolvem. Daí surge a possibilidade de sustentação das atividades econômicas de origem florestal, fundamentada pela visão que considera a floresta como fonte e recurso.

Resta uma participação mais intensa e efetiva da categoria, que deve ser estimulada e incentivada por iniciativa do poder público, e demandada pelos setores produtivos. A valorização e o reconhecimento serão então, uma consequência natural.

Todo florestal já foi para a mata, e aprendeu que ela deve ser usada e mantida, da melhor forma e com os melhores propósitos possíveis.



Parabéns a todos da Floresta.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Desmatamento: versão e interpretação

Na versão oficial, tem-se:

Desmatamento

É a operação que objetiva a supressão total da vegetação nativa de determinada área para o uso alternativo do solo. Considera-se nativa toda vegetação original, remanescente ou regenerada. Reforçamos o entendimento de que qualquer descaracterização que venha a suprimir toda vegetação nativa de uma determinada área deve ser interpretada como desmatamento.


A figura do "uso alternativo do solo" decorre da demanda espacial das atividades e ocupações na superfície terrestre, devido ao crescimento, especialização, diversificação, e consequente expansão territorial. O termo "alternativo" contudo, remete a uma possibilidade de não modificação de uso, ou seja, manutenção da vegetação nativa.

Entende-se por área selecionada para uso alternativo do solo, aquelas destinadas à implantação de projetos de colonização de assentamento de população; agropecuários; industriais; florestais; de geração e transmissão de energia; de mineração; e de transporte. (definição dada pelo Decreto 1.282, de 19 de outubro de 1994 - Cap. II, art. 7º, parágrafo único e pela Portaria 48, de 10 de julho de 1995 - Seção II, art. 21, §1º).


Atividades essenciais ao desenvolvimento nacional, que, invariavelmente, devem ser planejadas, executadas e geridas sob princípios e diretrizes estratégicos e perpetuamente sustentáveis.

De acordo com EMBRAPA (1996) e conforme CNPq e Academia de Ciências do Estado de São Paulo (1987), desmatamento é caracterizado pela prática de corte, capina ou queimada (por fogo ou produtos químicos), que leva à retirada da cobertura vegetal existente em determinada área, para fins de pecuária, agricultura ou expansão urbana.


Tais operações não ocorrem necessariamente na ordem citada, nem apresentam sequenciamento imediato. Mais detalhadamente: 
Corte arbóreo - caro e especializado. Deve ser oficial e legalmente atrelado ao destino e ao usuário da matéria prima florestal (madeira).


Capina - mecânica ou química, são dispendiosas e inviáveis para a maioria dos proprietários. Demandam equipamento, mão de obra e combustível, para execução, remanejamento, retirada e disposição de resíduos ou biomassa. Quando efetuada manualmente, se restringe a propriedades familiares e a propriedades pouco capitalizadas, para pequenas extensões, devido ao alto custo e baixo rendimento.

Queimada - forma mais rápida e eficiente de redução de biomassa. Deve ser autorizada e seguida de procedimentos e precauções sob sistema de controle e planejamento.


O gasto público concentra a maioria dos recursos para o controle e fiscalização dessas práticas, representando emblematicamente, os mais frequentes problemas ambientais divulgados.

Partindo do princípio que o desmatamento envolve um impacto ambiental dos mais acentuados, devido à descaracterização total do habitat natural, considera-se esta prática como última alternativa,  pois se a área solicitada para o desmate ainda é madeirável, isto é, se a área possui madeira de boa qualidade madeira de boa qualidade,  em quantidades economicamente viáveis, ao invés de se efetuar um desmatamento, deve-se implantar um Plano de Manejo Florestal Sustentado (PMFS). Caso a área requerida seja para formação de pastagens, dependendo da tipologia, pode-se optar pelo plantio direto. Nos casos em que a área solicitada realmente depende do corte raso para possibilitar o uso agrícola, pode-se intercalar faixas de vegetação nativa entre as áreas de plantio, a fim de minimizar os impactos envolvidos com a perda de solo e processos erosivos. 
Na Amazônia Legal, as solicitações de conversão para uso alternativo do solo acima de 3ha/ano não podem prescindir da apresentação de inventário florestal, bem como de vistoria prévia. Anteriormente a qualquer vistoria, o técnico executante deve rever a legislação para que não ocorram deslizes devido à inobservância legal.

Em atendimento a Instrução Normativa 003, de 10 de maio de 2001, deve-se apresentar o Inventário Florestal a 100% de todos indivíduos com DAP>20cm para a região da Amazônia Legal. Tecnicamente espera-se que a partir desta prática se possa determinar os fatores florísticos e estruturais da vegetação, tais como: o número de espécie por unidade de área; a existência de espécies imunes de corte; a densidade de indivíduos; e a área basal e o volume, não só das espécies economicamente aproveitáveis nos dias de hoje, mas também daquelas que ainda não entraram no mercado por motivos técnicos desconhecidos.

As recomendações e orientações técnicas oficiais refletem os cuidados e preocupações dos técnicos na manutenção e preservação das características naturais das paisagens. Mas, os procedimentos institucionais de regularização florestal, as deficiências, limitações e vulnerabilidades dos órgãos de controle, desacreditam as ações oficiais.
O conhecimento técnico institucional ainda não concebe a causa do não aproveitamento de diversas essências nas pastagens implantadas, cujas toras queimadas atestam a importância mercadológica, o descontrole oficial, e o resultado da forma de implantação do uso alternativo.

Como evitar o desmate clandestino

Intensificar a Educação Ambiental, levando a consciência a todas as comunidades locais;
Retomar a Extensão Rural;
Melhorar a fiscalização.
Não está incluída nenhuma medida de contrapartida para melhoria do controle governamental. A agilização e eficiência dos procedimentos nos órgãos de controle, juntamente com assistência e extensão efetivas, em ações interativas de informação e divulgação constantes, representam a abertura da vala e desobstrução do canal para regularização das atividades rurais. 
Não cabe somente pensar no apoio capenga da repressão, desgastado e ineficiente, cujo efeito contrário leva ao descrédito institucional.

Histórico

Desde o início da colonização do Brasil, as florestas da região costeira vêm sendo derrubadas. Naquela época, destacavam-se as matas de jacarandá e de outras madeiras nobres da região do Sul da Bahia, do Norte do Espírito Santo e da denominada Zona da Mata de Minas Gerais. De um total de, aproximadamente, 1,3 milhão de quilômetros quadrados da Mata Atlântica primitiva, restam, apenas, cerca de 50 mil km2 - menos de 5% da área original.
A intensificação do desmatamento se acentuou a partir de 1920, após o término da I Grande Guerra, com a vinda de imigrantes, especialmente da Europa. Além do prosseguimento da derrubada das árvores da Mata Atlântica, ocorreu a destruição avassaladora dos pinheirais da região Sul do país. Os carvoeiros e lenhadores avançavam com a derrubada de árvores para suprir as demandas dos usuários, destacadamente nas regiões dos Cerrados e do “Meio-Norte”, não respeitando as restrições legais de matas nativas, de proteção das nascentes, limites das margens dos cursos d’água, encostas com declives acentuados e topos de morros.
Na região norte do Estado do Paraná, as matas de perobas e outras espécies de madeiras-de-lei foram extintas, sem o devido aproveitamento nas serrarias, porque o objetivo era a ocupação da área para plantios de cafezais.
As áreas desmatadas da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica e do Cerrado somam 2,5 milhões de km2 (250 milhões de hectares) - quase 30% do território brasileiro, ou a soma das superfícies formadas pelos Estados das Regiões Nordeste e Sudeste. Os técnicos florestais estimam que o desmatamento, em todo o território é superior a 300 milhões de hectares de matas.
O desmatamento e as queimadas da região Amazônica constituíram as mais sérias preocupações dos ambientalistas nas últimas décadas, por acarretar desequilíbrios imprevisíveis ao ambiente, com conseqüências desconhecidas. A extração ilegal de madeira, o desmatamento para uso alternativo do solo, sobretudo para a formação de extensas pastagens e plantios agrícolas formam a maior ameaça às florestas. A destruição da Amazônia, a maior das florestas primárias remanescentes do mundo é assustadora. Somente nos últimos quatro anos mais de 77 mil km2 - uma área um pouco maior do que os Estados do Rio Grande do Norte e Sergipe juntos - foram devastados.
Várias madeireiras estrangeiras, principalmente da Indonésia, Malásia, China e Japão, estão instaladas na região. Devido à precária fiscalização governamental na área, é grande o corte clandestino de árvores, que muitas vezes acontece, também, em reservas indígenas. Segundo relatório do Greenpeace, dos 36 pontos críticos de destruição na Amazônia, 72% estão relacionados à indústria madeireira. Apenas uma companhia que opera na região, a Mil Madeiras, é totalmente certificada pelo Conselho de Manejo Florestal e, das 17 companhias madeireiras pesquisadas, 13 indicaram não ter qualquer interesse em obter a certificação.
Um outro dado alarmante é que, nas últimas duas décadas, a contribuição da Amazônia na produção de toda a madeira utilizada no Brasil aumentou de 14% para 85%. A região forneceu quase 29 milhões de m3 de toras em 1997. De acordo com dados oficiais, 80% dessa exploração é feita de forma ilegal. Segundo o Greenpeace, mesmo a extração considerada legal é altamente destrutiva e o uso de tecnologia obsoleta resulta em enorme perda de matéria-prima durante o processo produtivo. Segundo a entidade, em média, apenas um terço da madeira extraída é transformada em produto final. Organizações não-governamentais de meio ambiente defendem também implementação de novas áreas para proteção da floresta, uma vez que as áreas protegidas existentes equivalem a apenas 3,5% da Amazônia. Até hoje, aproximadamente dois terços da Amazônia permanecem como floresta virgem e ainda podem ser preservados.

É a história do desordenamento territorial e descontrole oficial na ocupação espacial. Populações imigrantes com cultura florestal desenvolverão atividades florestais, se na região houver florestas e estímulos ou desimpedimentos. Atividades economicamente sobrepujantes também determinam o "uso alternativo do solo", substituindo a vegetação nativa. A dominância espacial de usos específicos revela historicamente a importância relativa da atividade sobre a ocupação original: madeira, café, cana de açúcar, pecuária, mineração, etc. Quanto maior a extensão utilizada, maior a importância econômica.

Dados e informações sobre o fenômeno devem ser considerados à luz da racionalidade: o deslocamento do fluxo do abastecimento da madeira para o mercado nacional deveria ser indicador de evolução e desenvolvimento. A ilegalidade é a questão que oficialmente, em todas as instâncias, ainda não foi consensuada. E virgindade florestal é um conceito polêmico e uma questão controversa.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Caatinga arbórea

A construção de uma ferrovia regional deve observar e atender  todos os preceitos e normas ambientais, em todas as instâncias do processo, desde o planejamento, implantação e funcionamento. Numa determinada região brasileira, onde devido a fatores naturais geoclimáticos, os recursos hídricos e bióticos são limitados em relação às necessidades sociais e econômicas, não é exatamente isso o que ocorre.

Residência rural no semi árido
Impactos Sociais
Como o meio ambiente é antes de tudo, cenário e resultado das atividades humanas, os primeiros e mais importantes impactos situam-se no âmbito social. Desapropriações e indenizações questionáveis de parte a parte, preceituam realocações assistidas dos desapropriados e uma série de benefícios teóricos.

Casa e moradores no caminho do progresso
A perda de áreas agrícolas produtivas na região afetada é considerável. A indução ao êxodo rural é grande e a migração aos locais de implantação é intensa, resultando em expansão de periferias urbanas e canteiros de obra. Os processos são correlatos, onde alguns afortunados com pouca ou nenhuma qualificação, são absorvidos temporariamente no processo. Outros empreendedores locais se beneficiam com o aporte demográfico. Daí decorrem inúmeros impactos sociais e urbanos, pouco ou nada benéficos.

Famílias de área rural no semi árido
Os primeiros impactos no meio físico são bem evidentes e decorrem da própria adequação do terreno: supressão da vegetação, movimentação de terra e nivelamento, presença e tráfego de trabalhadores, veículos e equipamentos, e  implantação das obras de arte. Todos eles pode ser devidamente mitigados e após a implantação, o aspecto impressionante será amenizado gradualmente, por conta das medidas de controle e pela ação da própria recuperação natural.

Corte em solo, em área de Caatinga arbustiva densa
Dos impactos da obra no meio físico, a retirada da vegetação, a movimentação de terra e material rochoso e a interferência em cursos d'água, geram grande repercussão ambiental. O assoreamento de talvegues e reservatórios é provocado por uma confluência desses impactos, principalmente na época das escassas chuvas. 


Cuidados ambientais nas operações de construção
As medidas exigidas para controle da erosão nem sempre são viáveis ou efetivas, dada à grande quantidade de material constantemente retirado, movimentado e descartado, à extensão da obra, ao despreparo de operadores e técnicos e ao descaso do empreendedor e responsáveis.

A redução de vazões e volumes de água decorrentes das operações construtivas sem preocupação ambiental, numa região de escassez e limitação hídrica, provoca consequências imperceptíveis e inestimáveis na saúde da população, nas sociedades e economias locais.
Estranhamente, apesar das dezenas de informações, documentos e providências exigidas dentre as condicionantes da Licença Ambiental, nenhum monitoramento e controle de assoreamento de reservatórios para abastecimento humano foi solicitado. 
As autorizações e outorgas para uso da água na obra foram concedidas sem maiores preocupações com a capacidade de suporte, vazões ecológicas e prioridades de uso.


Supressão de vegetação
A retirada da vegetação nativa em qualquer obra é um impacto ambiental cuja imediata percepção possui desdobramentos sociais significativos. 
Supressão de vegetação de Caatinga arbustiva e arbórea

Arraste de Baraúna
Nas autorizações de supressão de vegetação, o órgão ambiental exige a estocagem do material vegetal retirado e da camada superficial do solo, a fim facilitar a recuperação ambiental e a regeneração natural da vegetação, com a matéria orgânica e banco de sementes dessas fontes.
Troncos, galhos e pedras misturados com solo
O aumento da fertilidade, a melhoria das características físicas e químicas do solo, e o fornecimento de eventuais sementes ditam o raciocínio dos técnicos nessa exigência. Troncos e galhos de árvores grandes porém, não se prestam para essa finalidade, além de demandarem por parte das construtoras, custos específicos com empilhamento e realocação. Deveriam portanto, ser destinados ao uso e benefício social.
Material lenhoso, solo e pedras misturados na leira lateral
A madeira e a lenha das formações de Caatinga arbustiva e arbórea, fonte de material e energia para a população local, constituem os principais produtos vegetais tradicionalmente extraídos nessa região de recursos escassos. 

Material lenhoso estocado
A proibição de retirada da galhada e troncos das árvores abatidas (angicos, aroeiras, baraúnas, imburanas, etc) pela população afetada, por conta das exigências da legislação ambiental e por incapacidade gerencial, são entendidas pela população local, como mais uma imposição em nome do desenvolvimento. 

Troncos quebrados de árvores derrubadas por trator

Troncos de árvores abatidas manualmente, sem aproveitamento

O não aproveitamento do material lenhoso constitui um desrespeito à população e à região, no processo de implantação desse empreendimento, e representa a negação da sustentabilidade que o empreendimento defende.

Apesar do esforço pessoal de alguns técnicos para doação imediata da lenha e da madeira retirada, principalmente para os desapropriados, o entendimento oficial sobre a destinação desse material é inflexível quanto ao cumprimento de todas as exigências legais e burocráticas. Tomando isso como justificativa, a gestão ambiental do empreendimento assume uma postura de inoperância e impassividade.

 
Com isso, o recurso lenhoso, escasso e legalmente inacessível para a população rural, fica relegado à degradação e inutilidade. O mais intrigante é a indiferença e desinteresse dos responsáveis em mitigar esse agudo e emblemático impacto social e ambiental. Mesmo cientes e concordantes, e até verificando no próprio local, parecem não perceber o efeito do recurso desperdiçado.


Os técnicos do órgão ambiental, os empreendedores e os responsáveis moram em cidades, não residem em áreas rurais do sertão e não precisam da Caatinga. Contudo, recentemente outros técnicos de órgãos governamentais idealizaram um esforço para fomento do Manejo Florestal na Caatinga, com objetivo de estimular a produção de lenha.